Tecnologia

UE certifica tecnologia de direção assistida da Geely, fomentando a segurança veicular no mercado europeu: como esse modelo reverbera nos seguros?

Como os sistemas avançados de assistência ao condutor desafiam seguradoras e corretores a repensarem políticas e avaliação de risco.
UE certifica tecnologia de direção assistida da Geely, fomentando a segurança veicular no mercado europeu: como esse modelo reverbera nos seguros?

Aprovação inédita acelera a direção assistida no mercado europeu

A tecnologia de assistência à condução G-ASD, desenvolvida pela montadora chinesa Geely, recebeu certificação conforme as normas da União Europeia, tornando-se a primeira solução do tipo criada por uma empresa chinesa a obter esse reconhecimento no bloco. Com isso, veículos equipados com o sistema passam a ser comercializados em alguns países europeus sem necessidade de novas validações, e a estreia nas ruas está prevista para junho. Até então restrito ao mercado chinês, o G-ASD será expandido internacionalmente em modelos de marcas do grupo, como Geely Auto, Zeekr, Lynk & Co e Lotus. A aprovação, conquistada após testes rigorosos de segurança e conformidade, cria mais um capítulo para a automação veicular e isso também implica na importância da adoção de tecnologias voltadas à prevenção de acidentes – algo que também começa a redesenhar critérios de avaliação de risco no setor de seguros.

Menos acidentes, novos cálculos para o seguro

A expansão dos sistemas de assistência ao condutor tende a reduzir a frequência de acidentes, especialmente em mercados como o europeu, onde a regulação impõe elevados padrões de segurança, proteção cibernética e interação segura entre motorista e veículo. Para atender a essas exigências, a Geely desenvolveu o G-ASD em parceria com a China Automotive Technology and Research Center, estruturando uma base robusta de testes e validação. O sistema funciona como uma plataforma integrada de condução inteligente, combinando diferentes níveis de automação e podendo ser adaptado a diversos modelos por meio de configurações modulares. Em versões mais avançadas, sensores e alto poder de processamento permitem leitura completa do ambiente ao redor do veículo, elevando a precisão das respostas automatizadas. Estudos de entidades como a Organização Mundial da Saúde, a National Highway Traffic Safety Administration e o Insurance Institute for Highway Safety indicam que a adoção dessas tecnologias, especialmente quando associada a regulamentação e fiscalização, contribui para a redução de colisões e mortes no trânsito. Apesar dos ganhos em segurança, o impacto para o setor de seguros é ambivalente. A queda na sinistralidade pode vir acompanhada de maior complexidade na análise de risco, que passa a considerar não só o comportamento do motorista, mas o desempenho dos sistemas embarcados, suas atualizações e condições de manutenção.

Subscrição e precificação entram em revisão

A incorporação de soluções como o G-ASD exige uma revisão profunda nas práticas de subscrição. O risco deixa de ser exclusivamente humano e passa a ser compartilhado com a máquina, demandando novos critérios de análise. Nesse contexto, dados telemáticos e monitoramento em tempo real ganham protagonismo. A personalização das apólices tende a se intensificar, o que favorece o desenvolvimento de ofertas mais alinhadas ao uso efetivo do veículo e ao comportamento combinado entre motorista e tecnologia. Além disso, com a chegada dessas inovações, os corretores além de intermediar a contratação, devem ser responsáveis por esclarecer como essas soluções funcionam na prática, seus limites e impactos na cobertura. A relação com o cliente precisa ter um viés educativo, garantindo transparência na comunicação acerca das particularidades dos veículos conectados. 

Responsabilidade civil entra em zona de debate

Os sistemas de direção assistida também trazem à tona uma nova complexidade jurídica. Em ocorrências envolvendo veículos com algum nível de automação, a atribuição de responsabilidade deixa de ser exclusiva do motorista e passa a considerar também possíveis falhas de software, sensores ou decisões automatizadas do próprio sistema. Isso abre espaço para debates que envolvem montadoras, desenvolvedores de tecnologia e órgãos reguladores. Questões como a definição de culpa, a rastreabilidade de dados do veículo e o papel das atualizações remotas passam a influenciar diretamente a análise de sinistros. Do ponto de vista contratual, aumenta a importância de cláusulas mais detalhadas e transparentes, a fim de delimitar responsabilidades quando há interação entre ação humana e resposta automatizada. À medida que a automação avança, o seguro, além de lidar com a imprevisibilidade ligada ao comportamento humano, também começa a levar em conta variáveis tecnológicas, o que requer maior precisão jurídica e técnica na criação das apólices.

Geely ganha espaço e pressiona concorrência

A implementação de novas tecnologias na indústria automotiva também pode  promover mudança no equilíbrio competitivo no segmento com montadoras chinesas deixando de atuar apenas como alternativas de custo e assumindo protagonismo em inovação. A disputa passa a girar não só em torno de desempenho e design, mas, sobretudo, da capacidade de integrar software, sensores e inteligência embarcada. O movimento também mostra que a evolução tecnológica não está mais restrita às montadoras consolidadas. Trata-se de uma corrida global, marcada pela entrada de novos players, formação de parcerias estratégicas e aportes constantes em pesquisa e desenvolvimento.

Reflexos no Brasil e avanço do seguro baseado em uso

No Brasil, onde o setor acompanha de perto essas transformações, já se observa a expansão de produtos voltados a veículos conectados. O seguro baseado no uso (UBI) representa uma parcela relevante do segmento automotivo e a chegada de tecnologias como o G-ASD pode acelerar esse movimento, incentivando soluções mais dinâmicas, baseadas em dados e adaptadas ao comportamento real de condução. Seguradoras que incorporarem análise preditiva e integração com dados de direção assistida podem sair na frente com produtos competitivos e colher melhores resultados. A convergência entre inovação automotiva e inteligência de dados aponta para um redesenho estrutural do seguro auto, cuja eficiência operacional e precisão na avaliação de risco caminham lado a lado.

O seguro acompanha a inteligência sobre rodas

Numa realidade em que veículos passam a tomar decisões, interpretar cenários e evitar acidentes de forma autônoma, o risco reflete também a qualidade dos sistemas, dos dados e das conexões que os alimentam. Nesse novo contexto, seguradoras e demais são desafiados a operar em uma fronteira híbrida, onde engenharia, tecnologia e comportamento se entrelaçam. A proteção securitária, portanto, dialoga com o desempenho contínuo da máquina, demandando o desenvolvimento de modelos mais dinâmicos, contratos mais claros e uma leitura mais sofisticada do risco. O movimento iniciado na União Europeia pode, assim, acelerar a transição para um mercado em que dados, conectividade e automação deixam de ser diferenciais e passam a compor a base do negócio. Isso também relembra a importância da articulação entre montadoras, reguladores e seguradoras para melhorar a segurança viária e equilíbrio financeiro no setor. Diante desse cenário, profissionais de seguros precisarão ampliar repertório técnico e incorporar novas ferramentas, combinando conhecimento em tecnologia, análise de dados e relacionamento com o cliente, redefinindo o próprio conceito de proteção e exigindo um mercado segurador mais preparado para interpretar e acompanhar essa evolução contínua.

Postado em
20/3/2026
 na categoria
Tecnologia
Deixe sua opinião

Mais sobre a categoria

Tecnologia

VER TUDO