Quanto custa operar IA nas seguradoras? O gasto escondido na infraestrutura que pode corroer o retorno da IA no seguro

Um projeto de inteligência artificial costuma entrar numa seguradora pela porta do piloto, com uma carteira restrita, um grupo pequeno de analistas e um volume de consultas que cabe com folga no orçamento aprovado. O custo de infraestrutura aparece depois, quando a mesma solução é estendida para toda a operação. Cada documento analisado, cada mensagem respondida e cada cotação processada consome capacidade computacional, cobrada em muitos casos conforme o uso. Uma aplicação que custava pouco atendendo a uma regional pode se transformar em uma linha relevante de despesa quando passa a atender todos os corretores parceiros da companhia.
A dificuldade de acompanhar essas despesas foi o tema de uma pesquisa global da KPMG, divulgada em junho de 2026, segundo a qual 42% dos líderes entrevistados declararam ter apenas visibilidade parcial dos gastos com inteligência artificial. O levantamento também identificou que 23% enfrentavam dificuldades para administrar custos baseados no consumo e 33% apontavam obstáculos para compreender as estruturas de cobrança. Os resultados, que abrangem empresas de diferentes setores, ajudam a dimensionar uma preocupação que também se aplica ao mercado segurador: como ampliar o uso da IA sem perder o controle financeiro da infraestrutura necessária para mantê-la em funcionamento.
Onde a IA consome recursos dentro de uma seguradora
A cadeia de valor do seguro tem muitos pontos de entrada para a IA, e cada um tem um perfil de consumo diferente. Um assistente virtual que responde a perguntas frequentes sobre coberturas e procedimentos pode utilizar uma estrutura relativamente simples, enquanto uma ferramenta destinada à análise de documentos de sinistros pode precisar interpretar arquivos extensos, consultar informações da apólice e cruzar registros de diferentes sistemas.
Essas diferenças influenciam os custos de processamento, armazenamento e transferência de dados, especialmente quando os serviços são contratados por modelos de cobrança conforme o consumo. O volume de operações também interfere nessa conta. Uma ferramenta utilizada inicialmente por uma equipe restrita pode exigir uma capacidade computacional superior quando disponibilizada a diferentes áreas da seguradora ou incorporada ao atendimento de milhares de clientes.
Há ainda despesas associadas à maneira como as aplicações são desenvolvidas. Em um processo automatizado de análise documental, por exemplo, consultas repetidas a uma mesma base de dados ou o reprocessamento desnecessário de arquivos podem aumentar o consumo de recursos sem contribuir para a qualidade da análise. A identificação dessas situações depende de informações detalhadas sobre o funcionamento da ferramenta e os custos de cada etapa.
A relação entre custo e resultado nas operações de seguros
O controle financeiro ganha outra dimensão quando os investimentos em IA são relacionados aos resultados que cada aplicação pretende alcançar. Na regulação de sinistros, uma solução pode ser desenvolvida para auxiliar na triagem de documentos e reduzir o tempo dedicado a atividades operacionais. Para avaliar sua viabilidade, a seguradora precisaria considerar o custo de processamento de cada caso, o tempo eventualmente economizado pelas equipes e a qualidade das informações produzidas.
A mesma avaliação pode ser aplicada à subscrição. Ferramentas que auxiliam na organização e interpretação de dados para análise de riscos podem exigir diferentes níveis de capacidade computacional, dependendo da complexidade das informações examinadas. O investimento precisa ser confrontado com os benefícios observados no trabalho dos subscritores e com a contribuição efetiva da tecnologia para a operação.
Essa relação ajuda a explicar por que a menor despesa computacional nem sempre representa a alternativa financeiramente mais adequada. Um modelo de IA de menor custo pode atender satisfatoriamente a tarefas simples, enquanto processos que exigem análises complexas podem demandar ferramentas com maior capacidade. A escolha envolve equilibrar o valor gasto na execução das tarefas, os requisitos de precisão, os mecanismos de supervisão e os resultados esperados.
Para as seguradoras, portanto, a avaliação financeira da IA precisa considerar as particularidades de cada área, pois uma ferramenta de atendimento e uma aplicação de apoio à subscrição possuem finalidades, exigências técnicas e indicadores de desempenho diferentes.
Monitoramento dos gastos e planejamento da infraestrutura
A pesquisa da KPMG também identificou uma associação entre a visibilidade dos custos e o retorno dos investimentos. Entre as organizações com maior controle sobre as despesas de IA, 15% declararam ter estabelecido retorno sobre o investimento, em comparação com 3% entre aquelas com menor visibilidade. O resultado indica uma relação entre acompanhamento financeiro e capacidade de demonstrar valor, embora não permita atribuir essa diferença exclusivamente ao monitoramento dos gastos.
Uma possibilidade para as seguradoras é acompanhar o consumo de infraestrutura por aplicação e área de negócio, relacionando despesas de processamento, armazenamento e serviços contratados aos volumes de operações executadas. Com esse detalhamento, torna-se possível identificar quais ferramentas apresentam aumentos de custo, investigar as razões dessas variações e verificar se os resultados continuam compatíveis com os recursos empregados.
O planejamento também pode incluir limites de consumo, alertas de despesas inesperadas e revisões periódicas da arquitetura das aplicações. Em uma ferramenta que processa documentos de sinistros, por exemplo, a seguradora poderia avaliar a necessidade de utilizar modelos complexos em todas as etapas ou reservar esse processamento para situações que demandem análises específicas, desde que a escolha preserve a qualidade e a segurança do procedimento.
O crescimento da utilização de IA acrescenta, assim, uma responsabilidade à gestão dos investimentos tecnológicos das seguradoras. A expansão das aplicações precisa ser acompanhada por critérios financeiros capazes de demonstrar quanto cada ferramenta custa para funcionar e quais resultados entrega à operação.




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