presença feminina nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) ainda é limitada. Segundo levantamento publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apenas 28% da força de trabalho nesses campos é composta por mulheres. No setor específico da inteligência artificial, esse número cai para 22%. Ainda que o avanço digital crie novas possibilidades de atuação e inovação, ele também reproduz desigualdades já consolidadas — inclusive dentro das dinâmicas tecnológicas com pretensões transformadoras.
A digitalização pode reforçar quando segue lógicas neutras ou repete padrões excludentes
No setor de seguros, esses dados encontram eco nas estruturas internas do próprio mercado. A digitalização do setor, embora necessária, tende a ser conduzida a partir de modelos que priorizam automação e eficiência, mas que nem sempre questionam quem tem acesso pleno a essas soluções, quem participa da sua concepção e quem é representado nos dados que sustentam essas decisões.
A digitalização é frequentemente tratada como vetor de inclusão — e, em muitos aspectos, pode de fato ampliar o alcance de produtos e serviços. No entanto, quando segue lógicas neutras ou repete padrões excludentes, ela pode reforçar barreiras.
Tecnologia pode contribuir para distribuição mais justa da proteção securitária
Mulheres com trajetórias fora dos perfis formais de emprego, por exemplo, continuam tendo dificuldade para acessar produtos de proteção financeira. Nesse ponto, o uso de dados alternativos, integrados a plataformas digitais e adaptados a diferentes realidades de renda e trabalho, poderia contribuir para uma distribuição mais justa da proteção securitária. Isso é particularmente relevante quando se observa que, no Brasil, mais de 49,1% dos lares são chefiados por mulheres, muitas delas em condições de informalidade ou instabilidade econômica.
A contribuição técnica de mulheres pode ampliar o escopo de inovação
Ao mesmo tempo, a construção dessas soluções demanda representatividade dentro da cadeia de desenvolvimento. Insurtechs, seguradoras e startups do setor ainda contam com baixa participação feminina em cargos técnicos e estratégicos. A ausência de diversidade nas equipes de tecnologia limita a pluralidade de perspectivas na formulação de produtos e decisões orientadas por dados. Assim como no exemplo citado pela matéria mencionada do PNUD — de uma engenheira chinesa que desenvolveu um sistema de refrigeração sem produtos nocivos à camada de ozônio —, a contribuição técnica de mulheres pode ampliar o escopo de inovação justamente por incorporar dimensões muitas vezes negligenciadas em projetos dominados por visões homogêneas.
Dados nacionais apontam barreiras à inserção feminina nas áreas técnicas que sustentam a transformação digital
Os dados nacionais reforçam essa assimetria. De acordo com o estudo “Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, divulgado pelo IBGE e publicado no portal O Globo, embora as mulheres representem 60% dos concluintes do ensino superior no Brasil, elas são apenas 15% entre os formados em cursos de tecnologia da informação (TI) e computação — um número que, em vez de avançar, caiu em relação aos 17,5% registrados em 2012. Em cursos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, a participação feminina passou de 23,2% para 22% entre 2012 e 2022, confirmando uma tendência de estagnação ou retração. A exceção foi o curso de ciências físicas, em que as mulheres passaram a ser maioria entre os concluintes. Ainda assim, o quadro geral aponta para a persistência de barreiras à inserção feminina nas áreas técnicas que sustentam a transformação digital.
Soluções digitais, quando desenvolvidas a partir de uma escuta qualificada, têm o potencial de se adaptar a diferentes realidades
Outra questão a ser pontuada está na forma como a tecnologia é aplicada na construção da experiência do seguro. Soluções digitais, quando desenvolvidas a partir de uma escuta qualificada, têm o potencial de se adaptar a diferentes realidades — especialmente àquelas que envolvem jornadas marcadas por acúmulo de funções, trabalho informal e pouca previsibilidade de renda, situações comuns entre muitas mulheres. Modelos como o seguro acumulador, que vincula benefícios a atividades cotidianas — como movimentações financeiras ou metas de bem-estar —, apontam caminhos para um relacionamento mais contínuo e significativo. Ainda assim, essas iniciativas seguem pontuais e pouco difundidas, mostrando que a personalização real da experiência seguradora ainda encontra limites quando se trata de incorporar perspectivas mais diversas.
A equidade no setor de seguros exige mais do que ocupação: é preciso reposicionamento
A presença de mulheres no setor de seguros — embora majoritária em termos quantitativos — ainda não se reflete nos espaços de liderança. Um levantamento do Panorama Mulheres 2023 demonstrou que a presença feminina em cargos de presidência e liderança no Brasil subiu de 13% para 17% entre 2019 e 2022. Apesar do avanço, os números permanecem baixos. No setor de seguros, as mulheres representam 54,4% da força de trabalho, segundo dados da ENS. Ainda assim, apenas 17% ocupam cargos de CEO e gerência. A disparidade revela que presença numérica não se traduz automaticamente em equidade de poder ou de decisão — e que a transformação do setor exige mais do que ocupação: requer reposicionamento.
Setor de seguros precisa de uma revisão sobre como as tecnologias são pensadas, para quem elas são desenhadas e com quais pressupostos operam
Levar a sério a relação entre gênero e tecnologia no setor de seguros é, portanto, reconhecer que a inclusão não se esgota no acesso à plataforma digital. Trata-se de uma revisão mais ampla sobre como as tecnologias são pensadas, para quem elas são desenhadas e com quais pressupostos operam. Os exemplos citados na matéria do PNUD — como o de Nino, na Geórgia, que lidera uma organização para uso social da tecnologia, ou o de Nozimahon, no Uzbequistão, que criou uma startup de assistência médica digital — mostram que há um campo fértil de atuação feminina quando há espaço, recursos e reconhecimento.
No Brasil, esse caminho ainda está em construção. E, nesse processo, o setor de seguros tem a oportunidade de repensar suas bases para garantir que a transformação digital, de fato, não deixe ninguém de fora.