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Mercado de veículos elétricos supera carros a gasolina na Europa e abre novas oportunidades para o setor de seguros

As vendas de veículos elétricos superam as de carros a gasolina na União Europeia pela primeira vez. Como o crescimento da mobilidade elétrica redefine riscos, coberturas e estratégias no mercado segurador global e no Brasil?
Mercado de veículos elétricos supera carros a gasolina na Europa e abre novas oportunidades para o setor de seguros

Um marco histórico para a mobilidade sustentável

As vendas de veículos elétricos superaram, pela primeira vez, as de modelos a gasolina na União Europeia, revelando uma virada estrutural no mercado automotivo. Estimulado por incentivos governamentais, novos lançamentos e maior competitividade, incluindo a entrada de marcas chinesas, o segmento elétrico ganhou força ao longo de 2025. Conforme a matéria do G1, segundo a ACEA, os emplacamentos de carros na UE, no Reino Unido e nos países da EFTA somaram 1,2 milhão de unidades em dezembro, alta de 7,6%, e 13,3 milhões no ano, o maior volume dos últimos cinco anos. No mesmo período, os veículos eletrificados, elétricos a bateria, híbridos plug-in e híbridos são responsáveis por 67% dos registros, com destaque para o crescimento de 51% dos modelos totalmente elétricos. Essa realidade representa a consolidação da mobilidade elétrica e impõe novos desafios ao mercado de seguros, que precisa se adaptar a tecnologias mais complexas e de riscos específicos.

Indústria automotiva aquecida impacta o seguro auto no Brasil

A projeção de 2,6 milhões de veículos produzidos no Brasil em 2025, com crescimento de 3,5% frente ao ano anterior, indica a retomada consistente da indústria automotiva nacional. O avanço é puxado pela chegada de novas montadoras, especialmente asiáticas, e pela expansão do portfólio de veículos, com maior presença de modelos elétricos e híbridos. Esse movimento traz efeitos diretos para o mercado de seguros, pois a renovação da frota tende a reduzir riscos ligados à obsolescência, mas, ao mesmo tempo, eleva a complexidade técnica das apólices. Tecnologias embarcadas, novos padrões de reparo e custos diferenciados de peças exigem produtos mais flexíveis, análises de risco atualizadas e maior preparo dos corretores. O crescimento dos veículos eletrificados reforça esse cenário. Com vendas mais que dobrando em relação a 2023, segundo a ABVE, cresce a demanda por coberturas específicas para baterias, sistemas eletrônicos e infraestrutura de recarga e isso aponta para uma nova fase do o seguro auto no país.

Novos modelos, novos desafios e riscos 

A ascensão dos carros elétricos altera o funcionamento tradicional de avaliação de riscos. Diferentemente dos veículos a combustão, os VEs concentram grande parte de seu valor em componentes tecnológicos sensíveis, como baterias de alta capacidade, softwares embarcados e sistemas eletrônicos avançados. Esses elementos elevam o custo médio de reparo e introduzem riscos específicos, como incêndios relacionados à bateria e falhas elétricas, exigindo apólices mais customizadas e modelos de precificação mais sofisticados por parte das seguradoras.

Recarga elétrica pode aumentar o mapa de riscos

A infraestrutura de recarga é um ponto crítico na consolidação da mobilidade elétrica. Seja em garagens residenciais, condomínios, estacionamentos corporativos ou estações públicas, o processo de carregamento dos veículos introduz novas exposições ao risco, incluindo falhas técnicas, sobrecarga da rede elétrica, curtos-circuitos e potenciais danos a terceiros. À medida que os pontos de recarga se multiplicam, cresce a demanda por coberturas mais abrangentes e específicas, que considerem desde danos ao veículo e à instalação elétrica até questões de responsabilidade civil envolvendo operadores de infraestrutura, administradores de espaços compartilhados e usuários finais. Para o mercado de seguros, esse cenário abre espaço para o desenvolvimento de produtos dedicados, capazes de acompanhar a expansão da eletromobilidade com maior precisão técnica e segurança jurídica.

Confiabilidade e uso intensivo dos elétricos mudam a lógica do risco segurável

Apesar da percepção de que os carros elétricos ainda seriam menos confiáveis por estarem em fase de estabilização, um estudo europeu apontou o oposto. O levantamento do ADAC, maior clube automotivo do continente, indicou que veículos elétricos registram até metade das falhas observadas em modelos a combustão. A análise, que considerou 156 veículos de 20 marcas, mostrou que automóveis elétricos fabricados a partir de 2020 apresentam menos ocorrências de defeitos por mil unidades do que seus equivalentes tradicionais, diferença que aumenta nos modelos mais novos. 

Além disso, uma pesquisa da Nissan revelou que os carros elétricos são mais usados que os veículos tradicionais. Segundo o estudo, condutores de veículos de emissão zero percorrem, em média, mais quilômetros por ano do que motoristas de carros a combustão, contrariando o mito de que a autonomia limita o uso a trajetos curtos. Esse cenário caracteriza uma mudança na avaliação de risco e produz efeitos distintos sobre a sinistralidade. A maior confiabilidade técnica tende a reduzir ocorrências relacionadas a panes e falhas, enquanto o uso mais intenso amplia a exposição ao risco, podendo elevar a frequência de acidentes e sinistros. Esse equilíbrio exige uma avaliação mais precisa do risco, com apólices adaptadas às características dos veículos elétricos, precificação baseada em dados de uso e estratégias focadas em prevenção, acompanhando a transformação da mobilidade.

Produtos especializados ganham espaço nos seguros

A customização de produtos precisa ser um requisito para acompanhar as novas dinâmicas da mobilidade, construindo soluções mais flexíveis e alinhadas ao perfil de cada condutor. O uso de telemetria e inteligência artificial e tecnologias de monitoramento podem ser importantes nessa nova realidade. A coleta contínua de dados permite às seguradoras adotar modelos de precificação mais dinâmicos, baseados no comportamento real do motorista, promovendo maior transparência, personalização e eficiência na relação com o cliente. Sensores embarcados possibilitam o monitoramento do desempenho do veículo, do estado da bateria e de eventuais falhas, favorecendo a prevenção de riscos e a redução da sinistralidade. 

Reflexos globais e preparação do mercado brasileiro

O crescimento dos veículos elétricos no Brasil está cada vez mais aquecido e isso também tem sido observado fora do país. As mudanças em tecnologia, comportamento do consumidor e regulação acabam se repetindo em diferentes ritmos, mas de forma inevitável. Para as seguradoras brasileiras, acompanhar essas transformações de maneira proativa é essencial. Antecipar tendências, capacitar equipes técnicas e comerciais, ajustar modelos atuariais e desenvolver produtos específicos para veículos eletrificados tornam-se estratégias decisivas para sustentar a competitividade no médio e longo prazo. Além disso, a preparação prévia permite reduzir incertezas, melhorar a precificação de riscos emergentes e fortalecer o posicionamento das companhias diante de um cenário de mobilidade cada vez mais digital, conectada e sustentável.

Sustentabilidade, regulação e ESG no centro da estratégia

A consolidação da mobilidade elétrica amplia o peso das questões regulatórias no mercado de seguros. Temas como a destinação adequada e a reciclagem de baterias, padrões de segurança para sistemas de recarga e responsabilidade em caso de falhas técnicas são pontos de atenção que não podem ser ignorados. Nesse contexto, as seguradoras devem estar atentas de maneira proativa nos debates regulatórios, identificando oportunidades em nichos ainda pouco explorados. A eletrificação do transporte também se adequa à agenda ESG  como parte da estratégia corporativa e compromisso social. O desenvolvimento de produtos que incentivem práticas sustentáveis, reduzam a pegada de carbono e promovam inovação responsável atende não apenas às demandas regulatórias, mas também às expectativas de consumidores e investidores cada vez mais atentos ao impacto ambiental e à governança das empresas. 

O seguro como protagonista na nova mobilidade

A virada histórica do mercado automotivo europeu não representa apenas a substituição do motor a combustão por baterias, mas o início de uma grande transformação na forma como os riscos são avaliados e precificados. À medida que os veículos elétricos se firmam como protagonistas da mobilidade no Brasil e no mundo, o desafio vai além de adaptar as coberturas, mas envolve compreender novas tecnologias, interpretar dados em tempo real, antecipar riscos e alinhar inovação à agenda ESG. Ao integrar sustentabilidade e gestão de riscos, o setor segurador amplia seu papel como agente de transformação na transição para uma economia de baixo carbono.Por isso, conforme os veículos se tornam mais elétricos, o seguro também precisa se tornar mais inteligente, flexível e alinhado ao futuro da mobilidade.

Postado em
30/1/2026
 na categoria
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