Mercado

Metade dos donos de motos sem CNH e 40% das mortes no trânsito. Como os seguros podem responder?

A combinação dos dados aponta uma distância entre a expansão do transporte sobre duas rodas, a formação dos condutores e a proteção financeira de trabalhadores e famílias atingidos pelos sinistros.
Metade dos donos de motos sem CNH e 40% das mortes no trânsito. Como os seguros podem responder?

De acordo com a ABETRAN (Associação Brasileira de Educação para o Trânsito), quase quatro em cada dez mortes registradas no trânsito brasileiro envolvem motocicletas. Ao mesmo tempo, a Secretaria Nacional de Trânsito  apurou que 50,4% dos proprietários desses veículos, cerca de 16,5 milhões de pessoas, não possuem habilitação para conduzi-los. Os números não permitem concluir que todas essas pessoas pilotem suas motos nem que as vítimas fatais estivessem sem CNH, ainda assim, a sobreposição mostra que uma parcela numerosa da frota está ligada a proprietários que podem não ter passado pelo processo formal de aprendizagem, justamente no meio de transporte que concentra a maior quantidade de mortes. 

Por óbvio, a habilitação não impede, por si, um acidente, assim como ela também não corrige vias mal projetadas, velocidades excessivas, fiscalização insuficiente ou pressões de produtividade sobre entregadores. No entanto, o processo de formação oferece contato com regras de circulação, condução defensiva, percepção de risco e procedimentos básicos de segurança. Com metade dos proprietários sem a habilitação exigida, fica o questionamento sobre quanto preparo há, de fato, entre quem pilota essas motos todos os dias.

A moto avançou mais rápido que a estrutura de proteção

De acordo com o relatório “Mortalidade e morbidade das motocicletas e os riscos da implantação do mototáxi no Brasil”, divulgado pela IPEA, a frota de motocicletas e motonetas passou de aproximadamente 2,7 milhões de unidades, em 1998, para 34,5 milhões em 2024. No mesmo período, o número de mortes de usuários saltou de 792, em 1996, para 13.521 em 2023. A participação das motos nas vítimas fatais, que estava em torno de 3% no fim dos anos 1990, chegou perto de 40%.

Essa expansão é explicada por alguns fatores que respondem a necessidades reais. A moto custa menos que um automóvel, consome menos combustível, facilita deslocamentos em cidades com transporte público limitado e se tornou instrumento de renda para entregadores, mototaxistas e prestadores de serviços. O veículo entrou rapidamente no cotidiano de milhões de brasileiros, enquanto formação, fiscalização, infraestrutura e proteção contra as consequências dos acidentes avançaram em outro ritmo. O custo da CNH esteve entre as barreiras apontadas para explicar a quantidade de proprietários sem habilitação, mas desde dezembro de 2025, as novas regras dispensam a contratação obrigatória de uma autoescola e permitem que as aulas sejam feitas com instrutores autônomos autorizados. A formação prática permanece obrigatória, mas sua carga mínima caiu de 20 para duas horas e os exames teórico e prático continuam exigidos. 

A redução do custo pode aproximar mais pessoas da habilitação. Seu efeito sobre a segurança, porém, dependerá de quanto treinamento cada candidato buscará além do mínimo e da capacidade do exame de verificar se ele está preparado para enfrentar o trânsito. 

Para o seguro, o veículo é apenas uma parte do prejuízo

O primeiro impacto percebido pelo mercado costuma ser o dano à moto, com roubo, colisão ou perda total, mas os dados indicam que a dimensão humana e financeira é muito maior. Em 2024, o SUS registrou 165.894 internações de vítimas de acidentes com motocicletas, cerca de 60% de todas as internações decorrentes de sinistros no transporte terrestre. Os gastos hospitalares ligados a esses casos chegaram a R$273 milhões, em valores corrigidos e cerca de 70% das vítimas têm entre 20 e 49 anos, período associado à atividade profissional e à responsabilidade pela renda familiar. Além de deixar a moto parada por alguns dias, uma colisão pode afastar o condutor do trabalho por meses, provocar incapacidade permanente ou retirar da família sua principal fonte de sustento.

Essa possibilidade amplia a pauta para além do seguro do veículo, alcançando acidentes pessoais, seguro de vida, diária por incapacidade temporária, invalidez, proteção de renda e responsabilidade civil podem responder a parcelas diferentes do prejuízo. Para quem trabalha com a moto, uma cobertura limitada ao conserto ou à reposição do bem deixa sem proteção o impacto mais difícil de absorver: a impossibilidade de continuar trabalhando.

A responsabilidade civil merece o mesmo tipo de atenção, já que o motociclista pode sofrer danos graves, mas também causar prejuízos físicos e materiais a pedestres, passageiros e ocupantes de outros veículos. 

Um risco que precisa ser conhecido com maior precisão

A quantidade de proprietários sem categoria A também carrega em si um problema de informação: o nome registrado como dono da moto nem sempre corresponde ao condutor habitual. Há veículos adquiridos em nome de familiares, alugados, compartilhados ou empregados em entregas sem que essa utilização esteja corretamente declarada. Para a seguradora, essa distância pode dificultar a avaliação da frequência de uso, da experiência do piloto e da exposição diária ao trânsito.

As várias modalidades de seguro precisam chegar ao motociclista

O retrato é de uma frota numerosa, condutores muito expostos e coberturas ainda concentradas no veículo, enquanto boa parte do prejuízo recai sobre a renda e a capacidade de trabalho. Já existem produtos acessíveis, proteção por incapacidade, responsabilidade civil e distribuição por empresas, mas é necessário que cheguem com mais força ao povo, a quem realmente precisa, plataformas e associações ligadas aos motociclistas.Isso passa por parcerias com plataformas, empresas, associações, oficinas, concessionárias e pontos de apoio aos motociclistas, além de contratação simples, pagamento compatível com rendas variáveis e comunicação que explique com clareza o que cada cobertura resolve.

Postado em
17/7/2026
 na categoria
Mercado
Deixe sua opinião

Mais sobre a categoria

Mercado

VER TUDO