Avanço dos carros chineses redesenha o mercado automotivo e acende o sinal amarelo para as seguradoras
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O Brasil praticamente dobrou a importação de carros vindos da China no primeiro semestre de 2026: os emplacamentos saltaram de 71 mil para 140,8 mil unidades na comparação com igual período do ano passado, segundo dados da Anfavea citados pelo jornal O Globo. O avanço, liderado pela BYD (99.029 emplacamentos e a marca de 300 mil elétricos vendidos em quatro anos de operação no país) e pela GWM (35.218 unidades), já provoca um efeito-dominó nos preços de veículos novos e usados — e é um movimento que o mercado segurador não pode ignorar.
Para reagir à concorrência, montadoras tradicionais passaram a oferecer descontos agressivos e bônus na troca de usados: a Toyota chega a bonificar em até R$ 40 mil a troca por uma Hilux, a Honda oferece até R$ 15 mil, a Volkswagen cortou cerca de R$ 10 mil do preço do T-Cross e a Fiat reduziu o Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990. Como o carro usado é precificado em referência ao zero-quilômetro, a queda nos veículos novos acelera a depreciação dos seminovos — "se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte", resume Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, à reportagem.
O que isso significa para o seguro auto
A dinâmica tem implicação direta para o setor de seguros, que historicamente ancora suas apólices na Tabela FIPE. Uma depreciação mais rápida e mais acentuada dos veículos usados — hoje estimada pelo mercado entre cinco e oito pontos percentuais acima da média histórica — tende a pressionar o valor de indenização em caso de perda total, exigindo revisão constante das tabelas de referência e maior atenção das seguradoras à atualização de valor segurado, sob pena de subsegurar ou sobressegurar a frota em circulação.
Do lado dos veículos elétricos e híbridos chineses, o desafio é outro: precificação de risco em um segmento ainda pouco maduro no Brasil. Baterias de alto custo, rede de oficinas especializadas ainda concentrada nas capitais, disponibilidade limitada de peças de reposição e curva de aprendizado das seguradoras sobre sinistralidade desses modelos são fatores que pressionam para cima o custo de sinistro médio — mesmo com o preço de aquisição do veículo em queda. Não à toa, especialistas do setor automotivo já apontam a verticalização da produção chinesa e a guerra de preços iniciada na Ásia como fatores estruturais, não conjunturais: "hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade", explica Antônio Jorge Martins, professor dos cursos automotivos da FGV, ao O Globo.
Oportunidade para insurtechs e seguradoras
Se por um lado o cenário exige repactuação atuarial, por outro abre espaço de negócio. Cresce a demanda por produtos específicos para elétricos — cobertura de bateria, assistência para recarga, guincho especializado — e por seguros residuais e garantia estendida que compensem consumidores diante da depreciação mais rápida do usado. Fabricantes chinesas, seguindo movimento já comum entre concorrentes globais, também têm avançado em seguros embutidos (embedded insurance) e parcerias com seguradoras e corretoras, ampliando a disputa por market share também na cadeia de proteção veicular, não só na venda do carro.
Com 280,6 mil veículos importados emplacados no primeiro semestre — quase metade vinda da China — e elétricos já representando 15% das importações brasileiras do país asiático, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o setor de seguros tem à frente um novo perfil de frota para segurar. A velocidade dessa transição é o que vai determinar quem sai na frente: seguradoras que anteciparem tabelas de risco, rede credenciada e produtos sob medida para o carro elétrico chinês devem capturar a próxima onda de crescimento do seguro auto no Brasil.




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