Mercado premium, elétricos e a nova corrida do seguro auto no Brasil

O brasileiro é apaixonado por carro. A frase é um clichê, mas por trás dela existe uma realidade de mercado que está se transformando de forma acelerada e silenciosa. A decisão de compra de um veículo, que por décadas foi movida pela emoção, pela estética e pelo status, tornou-se cada vez mais racional, analítica e ecossistêmica. E nessa nova equação, o seguro — historicamente tratado como um detalhe burocrático do pós-compra — passou a ocupar um papel central.
Foi com essa tese que Emanuel Nascimento, Superintendente Executivo da Bradesco Seguros, conduziu sua participação no painel de Tendências no Seguro Auto do TRENDS 26. Com dados precisos, metáforas certeiras e um caso real que ilustra a virada de paradigma, Nascimento pintou um panorama do mercado que poucos conseguem ver com tanta clareza.
"O automóvel passou a ser um shopping center de serviços. O seguro é a loja âncora — é onde o cliente ancora a decisão, mas em torno dele existe todo um ecossistema."
Um mercado resiliente em transformação acelerada
O ponto de partida de Nascimento foi contextualizar o momento do mercado automotivo brasileiro — e os números que apresentou surpreendem pela robustez. Nos últimos dez anos, as vendas de automóveis no Brasil cresceram de forma consistente, impulsionadas pelo avanço dos aplicativos de mobilidade, pelo crescimento da frota de motos e, mais recentemente, pela explosão dos veículos elétricos e híbridos.
De 2025 para 2026, o mercado cresceu aproximadamente 10%. As motos cresceram o dobro. E o segmento premium — veículos de alto valor, tecnologia avançada e público exigente — expandiu em velocidade ainda maior, seguindo uma lógica própria que resiste até mesmo às pressões econômicas que comprimem o poder de compra das classes médias.
A explicação para esse movimento aparentemente paradoxal é direta: enquanto o preço do veículo popular dobrou em relação ao salário mínimo na última década — de 25 para 50 salários mínimos —, o cliente de mercado premium não se move por essa régua. Ele busca experiência, exclusividade e conveniência. E está disposto a pagar por isso.
"O cliente premium não faz mais uma compra emocional. Ele busca uma experiência, é mais conectado, exige conveniência e exclusividade. Esse mercado se movimenta de forma completamente diferente."
A invasão elétrica e o novo desafio do seguro
Outro vetor de transformação que Nascimento destacou com dados contundentes é a eletrificação. A frota de veículos elétricos no Brasil já supera 700 mil unidades — e só em 2025 foram emplacados 245 mil novos elétricos. Há dez anos, o país contava com seis montadoras chinesas. Hoje são 48. O crescimento é vertiginoso e traz consigo implicações profundas para o mercado segurador.
Para além dos desafios técnicos de assistência e regulação de sinistros — tema abordado em profundidade por outros painelistas —, Nascimento ressaltou a dimensão estratégica do fenômeno: a tecnologia embarcada nesses veículos muda a natureza do produto que precisa ser segurado. Hoje, 55% dos veículos já saem de fábrica com tecnologia ADAS — sistemas de assistência ao motorista que monitoram e auxiliam a condução em tempo real.
Quando um desses veículos sofre um sinistro envolvendo o para-brisa, o problema não é apenas a troca do vidro: é a necessidade de recalibrar todos os sensores acoplados a ele. Um detalhe técnico que pode multiplicar o custo e o tempo de reparo — e que, se não estiver contemplado na cobertura, gera frustração e perda de confiança do segurado.
Foi olhando para essa realidade que a Bradesco Seguros desenvolveu o Alto, produto voltado especificamente para o segmento premium. Com cobertura para veículos que vão de R$ 300 mil a R$ 3 milhões, o produto inclui coberturas diferenciadas de blindagem — relevante em um país que ostenta a maior frota de veículos blindados do mundo —, isenção de franquia no primeiro sinistro, cobertura de pertences deixados no interior do veículo e regulagem especializada de sensores e tecnologia embarcada.
O caso que mudou tudo: o seguro como fator decisório
O momento mais marcante da apresentação de Emanuel Nascimento foi o relato de um caso real que, segundo ele, simboliza uma virada histórica no papel do seguro na cadeia automotiva.
Uma montadora procurou a Bradesco Seguros com um problema incomum: clientes chegavam até a concessionária, passavam por toda a jornada de escolha do veículo, se encantavam com o carro — e então desistiam da compra na hora de cotar o seguro. O custo da apólice, descoberto apenas nessa etapa final, inviabilizava a transação.
"Essa montadora nos procurou dizendo: precisamos trabalhar juntos, porque o seguro passou a ser um fator decisório na venda", contou Nascimento. "Imediatamente a pergunta passou a ser: quanto custa para segurar esse carro?"
"O cliente foi até a concessionária, gostou do carro, mas na hora de fazer o seguro, ele declinava a compra. O seguro passou a ser um fator decisório na venda do veículo."
Para o executivo, esse episódio não é apenas uma curiosidade de mercado. É um sinal claro de que o seguro migrou da periferia para o centro da jornada de compra do consumidor. E que as seguradoras precisam estar preparadas para ocupar esse novo espaço — com produtos competitivos, processos ágeis e uma visão clara sobre reparabilidade, custo de peças e disponibilidade de componentes.
"Hoje a gente na seguradora discute reparabilidade, custo de peças, disponibilidade de componentes, tempo de reposição", afirmou. "Não adianta fazer o seguro e o veículo ficar parado 15 dias para uma calibração de sensores."
Do streaming à TV aberta: uma metáfora para o novo seguro
Ao longo de sua apresentação, Emanuel Nascimento recorreu a duas metáforas para capturar a transformação que descreve. A primeira é a do shopping center: o automóvel é a loja âncora, aquela que atrai o fluxo, que ancora a decisão. Mas em torno dela existe um ecossistema completo de soluções — financiamento, manutenção, tecnologia, seguro — que permeiam e completam a experiência.
A segunda metáfora é ainda mais reveladora: o seguro funcionava antes como a TV aberta — um produto igual para todos, sem distinção, no qual o consumidor assistia ao que era oferecido sem qualquer poder de escolha. Hoje, ele precisa funcionar como um serviço de streaming: personalizado, sob demanda, adaptado ao perfil e ao momento de vida de cada usuário.
"Cada consumidor se relaciona com o mercado de automóvel de uma maneira diferente", resumiu. "As seguradoras que conseguirem se adequar, gerar flexibilidade, customizar produtos e jornadas e entregar um produto que converse com a necessidade de cada cliente vão sair na frente."


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