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Por que lançar um produto de seguro ainda leva meses e como encurtar esse ciclo

Entrevista com Rodrigo Santos no Insurtalks Cast discute o tempo para lançar e ajustar produtos de seguro, os entraves de TI e o papel de plataformas low-code na gestão de regras, cálculos e trilhas de auditoria.
Por que lançar um produto de seguro ainda leva meses e como encurtar esse ciclo

O tempo necessário para lançar e ajustar produtos segue como um dos gargalos mais persistentes na indústria de seguros, sobretudo quando regras do negócio, fórmulas de precificação e integrações dependem de ciclos longos de tecnologia. No mercado de seguros, há uma cobrança constante por agilidade, personalização e resposta rápida; ainda assim, muitas seguradoras ainda enfrentam dificuldades para atualizar regras, testar variações e conectar motores de cálculo aos canais de distribuição. O tema foi debatido no Insurtalks Cast, em conversa conduzida pela jornalista Thais Rucco com Rodrigo Santos, CEO e fundador da Abaccus, empresa especializada em automação, governança e gestão de motores de cálculo em ambientes regulados.

Do produto ao sistema: por que o tempo ainda estica?

“A natureza do mercado de seguros é um mercado complexo que mexe com valores, mexe com vidas, mexe com negócios.” Ao explicar por que mudanças simples podem demorar meses, Rodrigo Santos sustenta que o problema começa antes de qualquer linha de código: há uma cadeia de decisões de negócio que, no fim, “se converte em sistema” para ser operacionalizada em escala. Para ele, o desafio é menos um evento pontual e mais um acúmulo de camadas. Na leitura do executivo, a tecnologia tem papel central, mas não atua sozinha. “A tecnologia é muito importante, mas também ela precisa de processos, de controles”, disse. E é nesse ponto que, muitos projetos acabam “desembocando no TI”, com impactos diretos no prazo de entrega.

A fila de prioridades e o peso do legado

Questionado se o gargalo é mais técnico ou mais organizacional, Rodrigo respondeu: “Eu acho que são as duas coisas.” Ele argumenta que produtos não são simples e, ao mesmo tempo, a área de tecnologia costuma disputar espaço com múltiplas demandas que nem sempre têm relação direta com lançamento e ajuste de produtos.

Para ele, o efeito é previsível: times de negócio que querem agilidade esbarram em backlog e reordenação de prioridades. Em alguns casos, a seguradora ainda enfrenta limitações de capacidade interna e precisa “terceirizar com um parceiro”, o que adiciona mais dependências ao cronograma. O executivo pondera que o próprio “parque tecnológico instalado” varia muito de companhia para companhia e influencia o ritmo de mudança.

A proposta: dar autonomia ao negócio sem perder controle

A Abaccus nasceu, segundo Rodrigo, de uma experiência acumulada com motores de regra e cálculo desde 2005 e de um diagnóstico recorrente no setor: a necessidade de “desacoplar processos de negócio dos sistemas principais” para dar autonomia às áreas responsáveis por produto e subscrição. Ele lembra que, por muitos anos, essas soluções eram feitas sob medida para operar internamente em cada seguradora, o que limitava escala e padronização.

A aposta do negócio, como ele descreve, foi atuar em frentes que nem sempre receberam a mesma atenção no mercado: modelo comercial, usabilidade e preço. “Foi nesse flanco aí que a gente se posicionou, trazendo com low-code uma facilidade para times de negócio com pouca proficiência técnica”, afirmou, ao justificar o desenho da plataforma.

O que muda quando regras e fórmulas ficam em um só ambiente

Ao ser perguntado sobre o efeito de centralizar regras, fórmulas e condições em um único ambiente, Rodrigo apontou uma consequência imediata: “você tem um ganho em time to market notório.” Na prática, ele diz que isso acontece porque a mudança deixa de entrar “na esteira do TI” na maior parte dos casos, transferindo autonomia para o negócio.

O executivo ilustrou com um exemplo típico: ajustes pontuais por CEP de risco quando há alta sinistralidade. “Isso tem que acontecer agora”, disse. Segundo ele, se o ajuste tiver de seguir o fluxo tradicional de tecnologia, a demora pode gerar “evasão de receita desnecessária.” A diferença, nesse arranjo, é que o negócio implementa a alteração com mais rapidez — e, ao mesmo tempo, o processo fica registrado.

Governança e trilhas de auditoria como requisito do setor regulado

Em um mercado com regras rígidas, a discussão sobre autonomia costuma vir acompanhada de uma pergunta: como manter segurança e conformidade. Rodrigo respondeu que a plataforma sustenta esse equilíbrio com trilhas de auditoria e logs que mostram “quem mudou, o que mudou, quando alterou”. Ele descreve a possibilidade de “voltar na linha do tempo” para entender por que um critério de aceitação passou a funcionar de forma diferente.

Ao detalhar o funcionamento do motor, ele afirmou: “tudo que transaciona pelo nosso motor de regra… ele gera logs de execução”, registrando quais informações entraram, quais regras foram aplicadas e quais dados sustentaram a decisão. “Então, isso nos traz explicabilidade para cada transação que passa pelos motores da abaccus”, completou.

Ajustes que saem do papel: tarifa, subscrição e até políticas antifraude

Na lista de mudanças que costumavam levar semanas ou meses, Rodrigo citou “ajustes de tarifas”, agravos em prêmios e correções por praça, além de alterações em algoritmos de cálculo de prêmio. A conversa, porém, não ficou restrita à emissão e subscrição. Para ele, o mesmo tipo de motor pode apoiar outras rotinas do setor, como políticas ligadas a fraudes, que também precisam de atualização constante.

Ao tratar desse ponto, ele observou que essas políticas são dinâmicas e podem ser recalibradas conforme o negócio muda. Para Rodrigo, a lógica é semelhante: regras bem organizadas e passíveis de alteração controlada ajudam a acompanhar mudanças de risco sem depender de ciclos longos.

Go-to-market: entrar nas cotações antes do “sistema completo”

Um trecho da entrevista foi dedicado a um dilema comum na distribuição: quando o cálculo e as políticas de subscrição ficam disponíveis para o mercado apenas depois de todo o produto estar implementado internamente. Rodrigo argumenta que, ao separar a “inteligência do negócio” do restante dos sistemas, a seguradora consegue participar mais cedo de cotações com brokers e plataformas, mesmo que outras etapas — como emissão completa e processos internos — estejam sendo construídas em paralelo. A ideia, como ele resume, é colocar a API de cálculo e subscrição “na ponta” para testar a aderência e ajustar premissas enquanto o restante do projeto avança. Ele usa uma metáfora para explicar o ganho de ritmo: “eu não preciso que todo o transatlântico seja construído, eu consigo jogar um pedacinho no mercado e já começar a colher frutos disso.”

IA, explicabilidade e a diferença entre regra estática e decisão probabilística

Ao falar sobre inteligência artificial, Rodrigo ponderou que o tema “às vezes é polêmico”, mas necessário quando se trata de decisões que afetam pessoas e empresas. Ele afirmou: “a IA é probabilística” e, se uma decisão é delegada diretamente ao modelo, “nem sempre você vai conseguir rastrear exatamente como foi aquela decisão”.

Na visão dele, quando o processo se apoia em motor de regra e cálculo, “o critério é estático”, escrito por quem define o negócio, e isso facilita explicar por que um valor foi gerado. Ainda assim, Rodrigo não defende uma escolha excludente. “Essas tecnologias podem trabalhar em conjunto”, disse, avaliando que saídas de IA podem alimentar regras e previsões, desde que a operacionalização preserve controle e rastreabilidade.

Próximos passos: construir motores “via prompts” e desacoplar a inteligência do legado

Na parte final, Rodrigo comentou que a empresa trabalha para aproximar sua plataforma do universo de IA com uma camada que permita construir motores a partir de prompts. Ele descreveu a diferença entre “setar cada regra” manualmente e solicitar, por texto, a construção de um motor com fluxos e parâmetros já definidos. A intenção, segundo ele, é “trazer ainda mais agilidade”, preservando mecanismos de governança e rastreabilidade.

Sobre o rumo do mercado, Rodrigo disse que a evolução passa por “desacoplar essa camada de inteligência dos sistemas principais”, em vez de manter regras e cálculos embutidos em legados, pacotes de mercado ou sistemas sob medida. Para ele, a parte transacional deve se concentrar em processos e comportamentos, enquanto decisões e cálculos ficam mais próximos do negócio, já que “o que mais muda são regras e cálculos.”

Postado em
11/2/2026
 na categoria
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