Uber reforça aposta em táxis autônomos mesmo com queda no lucro: o que isso sinaliza para o mercado de seguros?

Uber continua apostando em robotáxi apesar da retração financeira
Mesmo diante da retração nos lucros e de projeções abaixo do esperado para os próximos trimestres, a Uber reafirmou sua decisão de seguir investindo em táxis autônomos. A companhia tem direcionado capital a parceiros fabricantes para assegurar fornecimento antecipado de veículos e acelerar a implantação das frotas, enquanto busca apoio de bancos e fundos de private equity para financiar grande parte dessa operação. Embora enfrente aumento da carga tributária global e desafios financeiros de curto prazo, a empresa sustenta que a demanda permanece aquecida, com crescimento expressivo no volume de viagens, impulsionado pela busca dos consumidores por alternativas de mobilidade mais acessíveis. Os robotáxis são vistos como promissores pela Uber e a empresa planeja disponibilizar corridas com veículos autônomos em 15 cidades até o fim de 2026, incluindo Madri, Hong Kong, Houston e Zurique. A decisão demonstra que a tecnologia de condução autônoma segue sendo um investimento a longo prazo, ainda que no curto prazo traga redução de lucro. No âmbito dos seguros, é válido começar a visualizar os riscos menos associados ao comportamento humano e mais vinculados a sistemas, algoritmos e infraestrutura tecnológica.
Implicações da condução não humana para os seguros
A expansão das frotas de veículos autônomos altera de forma estrutural a forma como os sinistros são analisados. Em vez de concentrar a análise no condutor, o foco migra para o desempenho do software, a confiabilidade dos sensores, a integração dos sistemas e o papel dos fabricantes e desenvolvedores de tecnologia. Esse novo arranjo exige das seguradoras uma leitura mais técnica do risco e produtos desenhados para diferentes elos da cadeia, que vão além do seguro automotivo convencional e passam a dialogar com responsabilidade civil tecnológica e falhas sistêmicas.
Regulação em evolução e impactos nos contratos de seguro
A continuidade dos investimentos da Uber em táxis autônomos contribui para acelerar a criação de regras específicas para a operação de veículos sem motorista. À medida que essas normas avançam, elas passam a influenciar diretamente a elaboração dos contratos de seguro, sobretudo na definição de quem responde por eventuais falhas técnicas, defeitos de sistema ou problemas operacionais. Esse ambiente regulatório em construção exige que seguradoras revisem cláusulas, responsabilidades e limites de cobertura, adaptando seus produtos a um cenário em que o risco deixa de estar concentrado no condutor e passa a ser compartilhado entre fabricantes, desenvolvedores de tecnologia e operadores da plataforma.
A estratégia da Uber para os veículos autônomos
Em julho de 2025, a Uber anunciou um aporte de cerca de US$ 300 milhões na Lucid Motors com o objetivo de viabilizar sua própria frota de robotáxis a partir de 2026. O investimento visou garantir à empresa uma participação minoritária na montadora e a aquisição de ao menos 20 mil veículos elétricos nos anos seguintes, desenvolvidos sob medida para a operação da plataforma. Os modelos, baseados no SUV Lucid Gravity, contarão com tecnologia de direção autônoma fornecida pela Nuro, reforçando a estratégia da Uber de integrar hardware, software e operação. A iniciativa complementa parcerias já existentes, como a firmada com a Waymo, e revelou a intenção da companhia de aumentar sua presença no segmento de mobilidade autônoma.
Redução expressiva de acidentes, mas com maior complexidade nos sinistros
Estudos recentes indicam que a introdução de veículos autônomos tem potencial para diminuir de forma consistente o número de acidentes de trânsito, mesmo em cenários de adoção limitada. Projeções publicadas na JAMA Surgery apontam que, até 2035, essa tecnologia poderia evitar mais de 1 milhão de feridos apenas nos Estados Unidos, com quedas já perceptíveis a partir de um uso parcial, entre 2025 e 2035.
A pesquisa considera diferentes níveis de adoção e segurança e estima uma redução média de 3,6% nas lesões relacionadas ao trânsito ao longo da próxima década. O impacto é relevante em um país que registra mais de 120 mortes diárias no trânsito e milhões de atendimentos hospitalares anuais, muitos deles ligados a falhas humanas e ao uso de álcool ou drogas ao volante, fatores que tendem a ser mitigados com a automação da condução. Para o mercado de seguros, no entanto, a diminuição da frequência de acidentes não significa necessariamente menor custo. Veículos equipados com sensores avançados, radares, câmeras e sistemas de inteligência artificial elevam o valor dos reparos e das indenizações, exigindo das seguradoras análises de risco mais refinadas, precificação baseada em dados e novas abordagens para a gestão de sinistros.
Monitoramento em tempo real e produtos moldados ao uso
A incorporação de tecnologias de monitoramento contínuo tem permitido às seguradoras desenvolver produtos mais aderentes à forma como os veículos autônomos são utilizados. Em parceria com startups de tecnologia embarcada, o acompanhamento constante do desempenho dos sistemas e das condições de operação viabiliza ajustes dinâmicos de cobertura e precificação, com base no uso efetivo dos veículos. Esse modelo pode reduzir incertezas, aumentar a transparência entre as partes e contribuir para a prevenção de fraudes, ao tornar os dados operacionais um elemento central da relação contratual.
Sinistros mais ágeis e operações mais eficientes
A digitalização associada aos veículos autônomos também favorece a automação dos processos de sinistros. O uso de inteligência artificial e modelos preditivos permite acelerar análises, antecipar riscos e agilizar indenizações, ao mesmo tempo em que reduz custos operacionais. Para sustentar esse novo ritmo, o mercado segurador precisa investir de forma consistente em infraestrutura tecnológica e capacitação profissional, garantindo que a inovação se traduza em eficiência prática.
Mobilidade autônoma como oportunidade de reinvenção do seguro
Mesmo diante de pressões financeiras, a aposta da Uber em táxis autônomos sinaliza que a mobilidade do futuro segue em construção. Para o mercado de seguros, essa transformação representa uma oportunidade de redesenhar soluções, parcerias e modelos de negócio. Nesse novo contexto, o risco deixa de ser predominantemente comportamental e passa a estar ligado à confiabilidade dos sistemas, à qualidade da integração tecnológica e à definição clara de responsabilidades entre operadores, fabricantes e desenvolvedores. A redução esperada na frequência de acidentes não elimina desafios, ela apenas desloca o foco para sinistros mais complexos, contratos mais técnicos e precificação baseada em dados. Por isso, produtos mais flexíveis, coberturas especializadas e capacidade analítica se tornam diferenciais em um cenário onde mobilidade, tecnologia e seguro operam de forma indissociável.


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