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que é o CL1 e a inteligência biológica sintética?

O CL1 é um computador biológico que combina células nervosas humanas cultivadas em laboratório com tecnologia de microchips de silício, criando um sistema que pode processar informações de forma semelhante ao cérebro humano. Imagine um pequeno chip que, em vez de depender apenas de circuitos eletrônicos, usa neurônios vivos para enviar e receber sinais elétricos, tornando-se um sistema híbrido entre biologia e computação. Para facilitar essa interação, a empresa Cortical Labs desenvolveu um sistema operacional chamado biOS (inteligência biológica), que permite que essas células neuronais executem comandos e realizem cálculos. 

ABC Science: Jacinta Bowler

Diferenças entre os PCs tradicionais

A grande vantagem do CL1 em relação aos computadores convencionais está na sua capacidade de aprendizado e adaptação rápida, semelhante à do cérebro humano, além do seu baixo consumo de energia. Um protótipo anterior foi construído com um chip contendo 800.000 neurônios humanos e de camundongos, e teve a capacidade de aprender a jogar o videogame Pong sozinho – assim como um ser humano faria ao praticar um novo jogo. Isso abre caminho para uma nova geração de sistemas computacionais que combinam a biologia e a tecnologia para criar dispositivos mais eficientes e inteligentes, com potencial para revolucionar áreas como a robótica, a pesquisa médica e a computação avançada.

CL1 na medicina

Conforme apontam os pesquisadores, o CL1 pode contribuir para pesquisas médicas, ajudando a entender doenças e desenvolver medicamentos. Cientistas investigam organoides cerebrais, pequenos aglomerados de neurônios que replicam funções do cérebro, para estudar como doenças neurodegenerativas afetam a memória e o aprendizado. A Cortical Labs colabora com Ernst Wolvetang, da Universidade de Queensland, que estuda células-tronco e organoides 3D. Enquanto Wolvetang foca em modelos complexos em três dimensões, a startup utiliza neurônios em um formato 2D simplificado. Apesar de sua visão cética, Wolvetang destaca que a Cortical desenvolveu um software e métodos de análise que demonstram a capacidade de aprendizado dos neurônios. A ideia é combinar os organoides 3D com os modelos 2D da Cortical, aumentando as possibilidades de pesquisa. Se os organoides mais complexos responderem bem aos estímulos e demonstrarem aprendizado, isso pode abrir novas oportunidades científicas. Por exemplo, ao inserir amostras de doenças neurodegenerativas nesses organoides, os pesquisadores podem descobrir como essas condições impactam a memória humana. Silvia Velasco, do Instituto de Pesquisa Infantil Murdoch, também investiga a formação do córtex cerebral, ampliando as perspectivas sobre o uso dessas tecnologias na medicina.

Como a novidade impacta o setor de seguros?

A introdução de computadores biológicos como o CL1 pode trazer novas demandas e oportunidades para o setor de seguros. Esses dispositivos exigem manutenção constante, fornecimento de nutrientes e controle ambiental, o que pode impulsionar o desenvolvimento de seguros específicos para falhas de sistemas biológicos, criando um novo nicho dentro do mercado de seguros para tecnologia. Uma possibilidade é a criação de seguros que cobrem danos financeiros resultantes de falhas em sistemas de computação biológica utilizados em pesquisas médicas. Por exemplo, laboratórios que dependem de organoides cerebrais para entender doenças podem precisar de uma cobertura que os proteja contra perdas financeiras caso esses sistemas falhem devido à falta de nutrientes ou a problemas no ambiente de cultivo. 

Apólices de responsabilidade civil para empresas que utilizam computadores biológicos em suas operações

Além disso, seguradoras poderiam desenvolver apólices que abordem a responsabilidade civil para empresas que utilizam computadores biológicos em suas operações. Se um dispositivo falhar e causar um impacto negativo significativo, como a perda de dados críticos ou interrupções em processos de fabricação, uma cobertura específica poderia ajudar a mitigar os riscos financeiros associados a isso. Outro aspecto a ser considerado é a possibilidade de seguros que cubram danos a infraestruturas físicas que suportam esses sistemas, como laboratórios equipados com ambientes controlados. Caso uma falha em um sistema biológico cause uma paralisação nas operações, a cobertura poderia ajudar a compensar a perda de receita durante o tempo de inatividade.

Esforço do setor em investir em tecnologia alcança quase 20 bilhões

A adoção de tecnologias avançadas têm levado seguradoras a investir bastante em inovação. Conforme revelado no portal InfoMoney, em 2024, foi projetado o valor de R$19,6 bilhões para o investimento em tecnologia, um crescimento de 17,5% em relação a 2023, quando os aportes somaram R$16,7 bilhões. Durante uma coletiva de imprensa, o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, destacou que o setor se consolida como um dos mais inovadores e tecnológicos. Segundo ele, os investimentos em tecnologia e inovação estão crescendo em um ritmo superior ao da própria expansão do mercado, embora haja uma relação direta entre o tamanho do setor e o volume de recursos aplicados. Oliveira enfatizou que a incorporação de tecnologia é essencial para a competitividade das empresas, alertando que aquelas que não investirem nessa área podem perder espaço. A pesquisa inédita da CNseg também aponta que 71% das companhias planejam ampliar os investimentos em inovação, evidenciando a crescente relevância do tema no setor.

Avanço da inteligência computacional e perspectivas promissoras

O avanço da inteligência computacional está se expandindo de várias maneiras. Como aliada do ramo segurador, a tecnologia computacional e suas funções podem beneficiar fortemente as etapas e os processos que ocorrem nos seguros. O recurso da computação em nuvem, por exemplo, já utilizado no setor, permite maior escalabilidade, processamento ágil de grandes volumes de dados e a implementação de inteligência artificial para aprimorar a análise de riscos, personalizar apólices e detectar fraudes com mais eficiência. A computação quântica, por sua vez, embora ainda em estágio inicial, promete transformar a modelagem de riscos e a precificação de seguros, tornando as projeções mais precisas e dinâmicas. Com o aumento dos investimentos tecnológicos, o mercado caminha para oferecer soluções mais inovadoras, acessíveis e alinhadas às necessidades dos clientes. No entanto, para garantir uma adoção eficiente e segura dessas inovações, é preciso também investir na capacitação profissional e no desenvolvimento de diretrizes regulatórias que assegurem a transparência e a proteção de dados, consolidando um setor mais tecnológico e preparado para os desafios do futuro.

As limitações da computação biológica

A manutenção de neurônios vivos dentro de um computador pode limitar a escalabilidade dessa tecnologia para aplicações de grande porte. Além disso, surgem questões éticas sobre o uso de células humanas para fins comerciais, o que pode influenciar a aceitação da tecnologia no mercado. Debates sobre a consciência dessas redes neurais e seu eventual uso para finalidades controversas podem gerar entraves regulatórios e impedir sua ampla aplicação. Por fim, a computação biológica ainda se encontra em um estágio inicial de desenvolvimento e sua escalabilidade é um desafio. Enquanto os computadores tradicionais continuam a evoluir, reduzindo custos e aumentando a eficiência, a computação biológica ainda precisa superar barreiras de infraestrutura, padronização e conformidade regulatória para se tornar uma alternativa viável em diversas indústrias. 

Uma nova forma de prever riscos

Com a chegada da computação biológica, novas modalidades de seguros podem surgir para cobrir falhas de sistemas vivos, garantindo proteção para empresas que dependam dessas inovações. A evolução dessa tecnologia também pode impulsionar seguros baseados em aprendizado contínuo, onde algoritmos biológicos avaliam riscos em tempo real, ajustando coberturas e precificação de forma altamente personalizada. Embora ainda existam limitações e desafios a serem superados, é essencial que o setor de seguros acompanhe de perto os avanços da inteligência biológica sintética para avaliar quando e como essa tecnologia poderá ser integrada às suas operações. Considerando os benefícios que as tecnologias de ponta podem trazer para o setor, a adaptação contínua às inovações tecnológicas é indispensável para acompanhar as novas demandas. Apesar de ser cedo para prever todas as implicações, uma coisa é certa: a fusão entre inteligência biológica e o mercado de seguros trará novas oportunidades, desafios e, possivelmente, uma revolução na forma como os riscos são entendidos e gerenciados.

Postado em
19/3/2025
 na categoria
Tecnologia

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