Do seguro embutido à inteligência embarcada: a próxima transformação do mercado

Depois de anos investindo na digitalização e integração de sistemas, o mercado de seguros entra em uma nova fase, marcada pela inteligência artificial. Para Renato José Ferreira, CEO da SUTHUB, a transformação vai além de automatizar tarefas: está na combinação entre seguros integrados às jornadas de consumo e inteligência embarcada na infraestrutura que conecta seguradoras, assessorias e corretores. Nesta entrevista, ele aborda os desafios dessa evolução e seus impactos na distribuição de seguros.
Insurtalks: Será que a tecnologia realmente simplificou o trabalho do corretor ou apenas transferiu a complexidade para uma tela? O que muda com a chegada da inteligência artificial?
Renato José Ferreira: Durante muitos anos, digitalizamos processos, criamos portais e automatizamos cotações. Foram avanços importantes, mas o corretor ainda precisa acessar diferentes sistemas, transferir informações e acompanhar manualmente muitas etapas da operação.
A inteligência artificial abre a possibilidade de inverter essa lógica. Em vez de o profissional procurar tudo o que precisa, a tecnologia pode ajudá-lo a identificar prioridades, acompanhar renovações e encontrar oportunidades comerciais.
Na SUTHUB, sempre enxergamos a tecnologia como uma infraestrutura que deve funcionar nos bastidores. É como abrir uma torneira: queremos que a água saia, sem precisar entender toda a estrutura hidráulica por trás.
Agora podemos acrescentar inteligência a essa infraestrutura, tornando a operação mais simples para quem está na ponta.
A inteligência artificial não substitui a infraestrutura. Ela torna essa infraestrutura mais inteligente.
Insurtalks: Como a multicotação pode evoluir de uma ferramenta de comparação de preços para uma plataforma que ajuda o corretor a vender mais?
Renato José Ferreira:A multicotação resolveu um problema importante: consultar diferentes seguradoras sem repetir o mesmo processo várias vezes. Mas a jornada comercial não termina quando o corretor apresenta uma proposta.
O que acontece com uma cotação que não virou contrato? Quem acompanha essa oportunidade? Como a corretora aproveita essas informações para uma nova abordagem?
Foi olhando para essa realidade que desenvolvemos a Multico.ai. Nossa proposta é ir além da cotação, reunindo recursos para apoiar a gestão comercial, o relacionamento com clientes e o acompanhamento das oportunidades.
A inteligência artificial faz parte da evolução dessa experiência, com potencial para facilitar consultas, organizar informações e apoiar ações comerciais.
O objetivo não é oferecer mais uma ferramenta, mas ajudar o corretor a aproveitar melhor seu tempo e sua capacidade de gerar negócios.
Cotar mais rápido é importante. Mas transformar cotações em oportunidades de relacionamento e vendas é ainda mais relevante.
Insurtalks: Quantas oportunidades comerciais uma corretora pode estar perdendo por não conhecer melhor a própria carteira?
Renato José Ferreira: Acredito que muitas corretoras têm um potencial comercial maior do que conseguem enxergar.
Pense em quantas cotações são realizadas e não se transformam em contratos. O cliente achou caro? Não encontrou a cobertura adequada? Contratou com outro corretor? Essas informações são valiosas, mas frequentemente ficam dispersas em sistemas, planilhas e mensagens.
O mesmo acontece com a carteira. Um corretor pode ter centenas de clientes e não perceber oportunidades de oferecer outros produtos ou antecipar necessidades de proteção.
Com informações organizadas, a inteligência artificial pode ajudar a identificar padrões e responder perguntas como: "Onde estou perdendo mais negócios?" ou "Quais clientes merecem uma abordagem neste mês?".
O crescimento de uma corretora não depende apenas de conquistar novos clientes. Muitas oportunidades estão dentro da carteira que ela já possui.
Insurtalks: Até onde os agentes de inteligência artificial podem trabalhar pelo corretor? E quais decisões devem continuar sendo humanas?
Renato José Ferreira: Os agentes de inteligência artificial representam uma evolução importante porque podem ajudar a antecipar atividades, e não apenas responder a comandos.
Imagine uma corretora com muitas renovações. A tecnologia pode identificar vencimentos próximos, organizar prioridades, verificar pendências e preparar informações para o contato com o cliente. Também pode sinalizar propostas que ficaram sem resposta.
Mas existe uma distinção fundamental: uma coisa é automatizar processos; outra é transferir a responsabilidade pelas decisões.
O corretor continua sendo imprescindível na orientação do cliente, na avaliação das necessidades de proteção e na construção de confiança.
Estamos falando de um setor regulado, no qual informações sobre coberturas e condições contratuais exigem precisão. Por isso, inteligência artificial precisa trabalhar com dados confiáveis, regras de negócio e mecanismos de validação.
Não vejo a IA como substituta do corretor, mas como uma forma de ampliar sua capacidade de atuação.
Insurtalks: Com a inteligência artificial avançando, o corretor de seguros tradicional corre o risco de perder espaço?
Renato José Ferreira: Acredito que o corretor continuará tendo um papel fundamental, mas a forma de trabalhar vai mudar.
O consumidor quer agilidade e autonomia, mas isso não elimina a necessidade de orientação. Contratar um seguro não é apenas comparar preços. É compreender riscos, avaliar coberturas e escolher a proteção adequada.
O que tende a mudar é o tempo dedicado às atividades operacionais. Com tecnologia mais integrada, o corretor poderá concentrar seus esforços no relacionamento, na consultoria e no desenvolvimento da carteira.
Vejo uma oportunidade especialmente interessante para as pequenas corretoras, que poderão acessar recursos tecnológicos antes restritos a operações maiores.
Daqui a cinco anos, acredito que a diferença estará menos no tamanho da corretora e mais na capacidade de utilizar a tecnologia a favor do negócio.
A tecnologia não elimina a importância do relacionamento. Ela pode devolver ao corretor o tempo necessário para construir relacionamentos melhores.
Insurtalks: Do seguro embutido à inteligência embarcada: como essa combinação pode transformar a distribuição de seguros e a relação entre seguradoras, assessorias e corretores?
Renato José Ferreira: O mercado brasileiro tem grande capacidade de desenvolver produtos, mas ainda enfrenta desafios para distribuí-los de maneira simples e eficiente. Seguradoras, assessorias e corretores possuem sistemas, regras e processos que nem sempre funcionam de forma integrada.
O seguro embutido representa uma evolução na distribuição: a proteção passa a fazer parte da jornada de consumo, seja na compra de um veículo, na contratação de um serviço ou em uma experiência digital.
Mas, para isso acontecer, é necessária uma infraestrutura capaz de conectar produtos, seguradoras e canais de distribuição.
A inteligência embarcada complementa esse movimento, incorporando capacidade de análise e automação à infraestrutura.
Para as seguradoras, isso pode ampliar o alcance dos produtos. Para as assessorias, facilitar a atuação junto às suas redes. E, para os corretores, reduzir a complexidade operacional e ampliar as oportunidades comerciais.
O seguro se aproxima de onde o cliente está, enquanto a inteligência passa a fazer parte da infraestrutura que viabiliza sua distribuição.
Insurtalks: A SUTHUB se aproxima de dez anos de atuação. Qual é a próxima grande transformação que você acredita que o mercado de seguros precisa enfrentar?
Renato José Ferreira: Quando começamos a SUTHUB, nosso desafio era conectar seguradoras, assistências e canais de distribuição. Ao longo desses anos, construímos uma infraestrutura que muitas vezes não aparece para o consumidor, mas que é essencial para que os negócios aconteçam.
Agora estamos entrando em uma nova etapa. Além de conectar sistemas e automatizar processos, temos a oportunidade de incorporar inteligência a essas operações, simplificando o trabalho de quem está na ponta e criando novas possibilidades de distribuição.
O Brasil ainda tem muito espaço para ampliar o acesso aos seguros. E acredito que a tecnologia pode contribuir bastante para isso, tornando a contratação mais simples e permitindo que os produtos cheguem a mais pessoas.
Olhando para esses quase dez anos de SUTHUB, vejo que nosso propósito continua o mesmo: ajudar o mercado de seguros a crescer. O que muda é a capacidade que temos hoje de fazer isso acontecer.




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