Sensores, batimentos e apólices: o que a coleira inteligente representa para o Seguro Pet

O Brasil tem hoje mais de 160 milhões de animais de estimação em lares que, em média, abrigam 2,6 pets por domicílio, de acordo com uma pesquisa da Quaest. O setor movimentou R$75,4 bilhões em 2024, um crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior, segundo a ABEMPET, com 77% dos tutores gastando acima de R$100 mensais com seus animais. Com esses dados, o argumento de mercado para o seguro pet se sustenta sozinho. O problema é que, dentro de um setor que movimenta dezenas de bilhões, menos de 10% dos tutores brasileiros contam com algum tipo de cobertura para seus animais, segundo levantamento publicado pela Exame. São números que indicam um mercado com demanda estabelecida e cobertura ainda incipiente.
Fitness trackers para pets
Enquanto o mercado segurador calibra seus produtos, a tecnologia vestível para animais percorreu um caminho próprio. Os fitness trackers para pets (dispositivos acoplados às coleiras) registram hábitos de sono, níveis de atividade física, localização e sinais vitais, armazenando essas informações em aplicativos que podem ser compartilhados com veterinários. A etapa seguinte desse desenvolvimento envolve ainda mais tecnologia: a Invoxia, startup francesa com distribuição global, comercializa a Minitailz, coleira com inteligência artificial que monitora saúde cardíaca e localização em tempo real. O sistema aprende o padrão individual de batimentos de cada cão para detectar anomalias específicas e permite o compartilhamento imediato de relatórios com o veterinário. O dispositivo pesa 37 gramas e bateria com autonomia de até 15 dias.
Dado contínuo versus consulta pontual
A distinção entre os dois modelos é importante para o mercado segurador porque o seguro pet convencional é estruturado para ser acionado quando algo acontece; o que a coleira inteligente produz é um fluxo contínuo de informações sobre o animal antes que qualquer evento ocorra. Com isso, é possível mudar o insumo disponível para precificação, já que em vez de trabalhar com histórico clínico declarado ou raça como estimativa de risco, será possível para a seguradora ter acesso a dados comportamentais e fisiológicos do animal específico. Um texto sobre longevidade animal e seguro já identificou essa possibilidade apontando que o uso de dados e inteligência artificial permite às seguradoras monitorar o perfil de saúde dos pets e oferecer planos dinâmicos e preventivos. Ou seja, a estrutura conceitual existe, falta um produto que a operacionalize no Brasil.
Apólice dinâmica como desdobramento possível
Um modelo em que as condições de cobertura respondem a variáveis monitoradas em tempo real, em vez de serem fixadas no ato da contratação, é muito interessante para essa situação. No seguro de automóvel, modalidades do tipo pay-as-you-drive já precificam o risco com base no comportamento real do motorista e o seguro pet com wearable caminha na mesma direção. Um cão com padrão cardíaco estável, atividade física regular e sono consistente representa um perfil de risco diferente de um animal sedentário com alterações de frequência cardíaca registradas ao longo de semanas, e embora a coleira não substitua a avaliação veterinária, ela entrega ao subscritor um volume de evidência que a consulta pontual não consegue produzir.
Os dados existem, mas permanecem isolados
A questão sobre as seguradoras usarem apólices dinâmicas no seguro pet ainda tem um porém: o tutor que já usa um wearable para o animal produz, diariamente, um volume de dados sobre a saúde do pet que não chega a lugar nenhum além do aplicativo do fabricante do dispositivo. Assim, frequência cardíaca, padrão de sono, níveis de atividade, variações de comportamento ficam armazenados em uma plataforma proprietária, acessível ao tutor e, quando compartilhado, ao veterinário. O mercado segurador, por ora, não tem acesso a esse fluxo porque não há ainda, no Brasil, um canal estruturado que transporte esses dados do ecossistema do fabricante para o ambiente de subscrição de risco. Fato é que o dado existe, está sendo gerado em tempo real e permanece isolado, útil para o cuidado cotidiano do animal, mas invisível para quem poderia usá-lo para construir uma cobertura mais precisa e mais justa para o segurado. Por enquanto, é claro.
Preventivo como proposta de valor
Se o segmento de seguros pet tiver como incorporar essas novidades em tecnologia, vai ampliar o escopo da cobertura para além da gestão de sinistros. As pettechs que investem em soluções tecnológicas estão em busca de melhorar a saúde dos pets e, se fizerem parcerias com seguradoras e insurtechs (em acordo com a LGPD), poderão, indiretamente, ajudar a reduzir o acionamento do seguro e conter fraudes. A coleira inteligente se encaixa nesse fluxo porque o dado que ela produz pode identificar deterioração gradual da saúde do animal com antecedência suficiente para uma intervenção veterinária e, com isso, evitar o sinistro de maior custo. Portanto, um produto que incorpore esse fluxo de informação entrega ao tutor cobertura financeira e acompanhamento contínuo dentro de uma mesma apólice. Esse caminho ainda está sendo construído no Brasil, mas os elementos que o compõem já existem.



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