A IA não vai substituir o corretor — mas o corretor que usar IA vai substituir o que não usar

Imagine poder tirar uma dúvida técnica sobre um produto de vida, consultar o status de uma proposta ou comparar coberturas de duas seguradoras diferentes, tudo pelo WhatsApp, em segundos, no meio de um atendimento ao cliente. Isso é o que ferramentas de inteligência artificial já permitem ao corretor de seguros que decidiu incorporar a tecnologia ao seu dia a dia. Foi com essa realidade que o painel “Tecnologia em Seguros” encerrou o Trends 2026.
Ao abrir o bloco, o mediador João Arthur Baeta Neves afirmou que o tema impactará a todos, independentemente da afinidade com o assunto. Eduardo Vieira, Superintendente Executivo da Icatu conhecido no mercado como Vavá, e Taylane Thomaz, Gerente de Marketing da Segbox, conduziram um debate que misturou ferramentas práticas, estratégias de conteúdo e um alerta que vale para todo o setor: o cliente também chegou à mesa de negociação com inteligência artificial na mão.
O copiloto que fala "segurês" e traduz
Vavá apresentou a A.V.I., uma assistente virtual da Icatu baseada em IA generativa e premiada pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) que é acessível via WhatsApp para corretores parceiros. A ferramenta permite realizar cotações, consultar comissões, verificar o status de propostas e identificar parcelas em aberto, tudo sem sair do aplicativo.

O diferencial que ele mais destacou foi a capacidade de traduzir o "segurês" em tempo real. Um corretor em pleno atendimento pode perguntar à A.V.I. o que é um DIT ou um DG e receber a explicação em segundos, sem precisar pausar a conversa com o cliente. "O corretor é a estrela. A IA cuida da agilidade operacional", resumiu.
“A personalização humana ainda é insubstituível”
Ele também apontou o potencial da ferramenta no cross-selling explicando que, ao fechar um seguro de carro, o corretor pode consultar a A.V.I. sobre como abordar um seguro de vida condizente com o perfil daquele cliente, transformando um dado em uma oportunidade de negócio. O mesmo vale para a análise de documentos que, em vez de percorrer páginas de condições gerais para encontrar uma regra de subscrição, basta fazer a pergunta.
Um ponto de alerta, porém, ficou claro: a IA é uma ferramenta, não uma voz. O corretor precisa revisar as respostas geradas e ajustar o tom antes de repassar qualquer informação ao cliente. A personalização humana, disse Vavá, ainda é insubstituível. E a melhor forma de aprender e dominar a tecnologia é usá-la todos os dias, até que a formulação de perguntas mais precisas (os chamados "prompts") se torne natural.
Dados, relacionamento e o corretor que chega na hora certa
Taylane Thomaz abriu sua fala dizendo que o mercado de seguros sempre teve dados em abundância: planilhas, multicálculos, históricos de sinistros fazem parte do cotidiano do setor há décadas. Ou seja, a informação sempre existiu, o que está mudando é a capacidade de fazer esses dados contarem uma história mais rica sobre o comportamento do consumidor. Ela explicou que CRMs alimentados por IA já conseguem identificar o momento exato em que cada cliente está mais propenso a abrir uma mensagem, permitindo uma abordagem personalizada sem ser invasiva e respeitando o espaço do consumidor em vez de interrompê-lo. Para Taylane, esse nível de hiperpersonalização é uma vantagem competitiva e se tornou o novo padrão de relacionamento que o cliente espera.
João Arthur reforçou o ponto ao lembrar que a pandemia acelerou essa transformação de forma irreversível, já que o consumidor saiu desse período mais informado, mais exigente e mais "esperto", o que impõe ao corretor uma mudança real na forma de abordar e qualificar leads.

Ela também apontou o Open Insurance como uma janela de oportunidade para o corretor que souber se posicionar como especialista técnico. Com a fragmentação das ofertas, quem conseguir traduzir os termos do setor para uma linguagem que o brasileiro comum entenda, transformando "segurês" em informação útil e acessível, terá um diferencial difícil de copiar.
Educar é o novo vender
Um dos momentos mais marcantes do painel foi quando Taylane afirmou que o conteúdo educativo já superou o conteúdo de venda. De acordo com ela, o consumidor moderno reconhece quando alguém está apenas tentando empurrar um produto, e se afasta. O que fideliza, hoje, são marcas e profissionais que buscam informar, esclarecer e construir um relacionamento real antes de apresentar qualquer oferta.
Vídeos curtos e podcasts foram citados por ela como formatos com grande potencial para o corretor que quiser se posicionar como referência no setor. Não por acaso, grandes seguradoras já experimentam com influenciadores e formatos de "novela vertical" no Instagram para se aproximar de públicos que nunca contrataram um seguro e que talvez nunca o fizessem pelos canais tradicionais.
João Arthur falou, durante o painel, sobre o SegZap: um assistente de IA para corretores que funciona diretamente no WhatsApp, permitindo consultas rápidas sobre apólices, envio de documentos e análise comparativa entre produtos de diferentes seguradoras. Um "assistente no bolso", nas palavras do mediador, para os momentos em que o corretor precisa de uma resposta rápida fora do escritório.
O cliente também tem IA na mão
Se há uma mensagem que o painel deixou de forma inequívoca, é que a inteligência artificial é uma realidade a ser incorporada e ela não está apenas nas ferramentas das seguradoras ou das assessorias, está no bolso do consumidor também. O cliente chega à negociação mais preparado, com mais perguntas e comparando produtos de forma mais criteriosa do que em qualquer outro momento da história do setor. O corretor que não acompanhar esse movimento encontrará, do outro lado da mesa, alguém que já pesquisou, já comparou e já sabe, pelo menos em parte, o que quer.
A boa notícia, como ficou claro ao longo do painel, é que a tecnologia não veio para substituir o profissional, veio para liberar seu tempo do operacional e devolvê-lo ao que nenhuma IA faz com a mesma eficiência: olhar nos olhos, entender o contexto e construir confiança. João Arthur lembrou que esse temor já esteve no setor antes, quando o termo "Insurtech" surgiu e corretores e seguradoras viram na tecnologia uma ameaça à sua existência. O tempo, porém, se encarregou de provar o contrário, e as ferramentas que pareciam ameaçadoras foram se revelando aliadas. O corretor que assimilar isso primeiro levará vantagem sobre quem ainda hesita.


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