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Gravidez, menopausa e RED-S levam mercado britânico a revisar coberturas destinadas a atletas mulheres

Trabalho que reúne governo, Universidade de Loughborough, seguradoras e corretoras incorpora aborto espontâneo decorrente de acidente esportivo à cobertura da Aon e examina outras lacunas que fazem pensar sobre quem foi considerado quando determinados produtos de seguro foram desenhados.
Gravidez, menopausa e RED-S levam mercado britânico a revisar coberturas destinadas a atletas mulheres

Uma cobertura de acidentes pessoais pode prever uma extensa relação de ocorrências capazes de interromper a carreira de um atleta e, ainda assim, deixar de fora consequências relacionadas ao corpo de parte das pessoas protegidas. No Reino Unido, essa constatação levou governo, Universidade de Loughborough, seguradoras, corretoras e representantes do esporte a revisar seguros destinados a atletas mulheres. Entre os primeiros resultados está uma mudança nas apólices da Aon, que incorporaram, como padrão, aborto espontâneo decorrente de acidente esportivo.

O trabalho continua porque a questão encontrada não termina nessa cobertura. O grupo examina lacunas relacionadas a gravidez, menopausa, contracepção utilizada por razões médicas e Relative Energy Deficiency in Sport (RED-S), síndrome associada à baixa disponibilidade energética que pode provocar alterações metabólicas, hormonais e fisiológicas e favorecer lesões. Também estão em análise critérios de exclusão presentes nos seguros atuais. BIBA, ABI, AXIS, Vitality, Aon, Willis, Miller, Howden, Marsh e outras empresas participam de diferentes frentes dessa revisão.

O caso chama atenção para um ponto anterior à redação de qualquer nova cobertura: quando determinadas experiências fisiológicas da população segurada ficam fora do produto, vale observar quais referências orientaram a definição dos riscos e situações contemplados desde sua concepção.

Quem estava representado na concepção do produto?

Todo seguro precisa definir situações cobertas, condições de contratação, exclusões e eventos que acionam a proteção, organizando uma população diversa em critérios que possam ser traduzidos em contrato. Nesse processo, as referências adotadas ajudam a determinar quais riscos, características e experiências encontram espaço dentro do produto. 

É nesse ponto que gravidez, menopausa, contracepção por razões médicas e RED-S levam a discussão para além do esporte, porque, embora sejam situações distintas, todas se relacionam a experiências fisiológicas que não podem ser tratadas como periféricas quando a população protegida inclui mulheres.

A publicação não afirma que as apólices tenham sido deliberadamente construídas tomando homens como modelo e também não informa quando ou por que cada exclusão foi criada, mas o próprio governo classifica como “blind spots” algumas das ausências que agora estão sob análise. Se elas permaneceram nos produtos até que atletas mulheres, especialistas do esporte, governo, corretores e seguradoras se reunissem para examiná-las, cabe observar até que ponto essas experiências haviam sido consideradas na formulação original das coberturas. 

Um “segurado padrão”, ainda que nunca apareça formalmente com esse nome, pode existir nas premissas usadas para pensar um produto. Ele está nas situações consideradas recorrentes, nas necessidades escolhidas para receber proteção e até nas perguntas formuladas durante sua construção. Quanto mais distante esse referencial estiver da diversidade das pessoas que efetivamente contratarão a cobertura, maior a possibilidade de algumas experiências ficarem pouco representadas.

A exclusão também conta a história de uma cobertura

A revisão britânica oferece outro ângulo para essa discussão porque parte das alterações está sendo buscada dentro das próprias exclusões. A BIBA (Associação Britânica de Corretores de Seguros) trabalha com corretoras como Aon, Willis, Miller, Howden e Marsh para avaliar quais delas podem ser reincorporadas às apólices, enquanto a AXIS revisa produtos de acidentes pessoais voltados ao esporte profissional. A ABI e seguradoras como a Vitality examinam coberturas e condições disponíveis para atletas mulheres.

Olhar para uma exclusão dessa maneira significa perguntar por que determinado risco ficou fora da proteção, se o fundamento que sustentava essa decisão continua adequado e como ele se relaciona com as pessoas que utilizam aquele seguro. Uma cláusula pode ter coerência dentro da estrutura técnica de um produto e, ao mesmo tempo, merecer nova análise quando aparecem experiências da população segurada que não estavam suficientemente representadas em sua formulação.

Essa reflexão também ajuda a evitar uma resposta simplista ao problema. Incluir sucessivamente situações específicas pode corrigir lacunas já identificadas, mas a revisão do produto pode alcançar uma etapa anterior: investigar quais premissas orientaram sua construção. Quem foi observado? Quais experiências entraram na avaliação do risco? Que características foram tomadas como referência geral? E quais grupos poderiam apresentar necessidades que esse referencial não alcançou?

Quem pretende proteger também precisa estar representado na revisão

O projeto britânico oferece uma pista sobre como enfrentar esse tipo de questão. O grupo afirma que trabalha com organizações esportivas para colocar as próprias atletas integradas ao processo de revisão e está desenvolvendo materiais destinados a atletas, clubes e entidades responsáveis pelo esporte. Junto a isso, seguradoras e corretoras discutem coberturas, exclusões e produtos especializados.

Essa forma de trabalho pode interessar ao mercado de seguros para além das modalidades esportivas envolvidas. Revisar uma cobertura também pode significar confrontar a população que o produto afirma proteger com aquela que esteve efetivamente representada durante sua concepção, já que quando há distância entre as duas, algumas ausências talvez sejam percebidas somente depois, seja por uma reclamação, por uma dificuldade de contratação ou pela descoberta de que determinada experiência sequer encontrou tradução contratual. É claro que nenhuma apólice consegue antecipar todas as particularidades de uma vida. Ainda assim, quando características compartilhadas por parte identificável dos segurados permanecem fora da proteção, vale investigar se a lacuna decorre da natureza do risco ou das referências utilizadas para enxergá-lo.

Postado em
25/8/2026
 na categoria
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