IA no plano de saúde: como os dados vão transformar a prevenção, a gestão e o preço que o beneficiário paga

Em um dos painéis mais técnicos do TRENDS 26, o maior evento de inovação do mercado segurador brasileiro, Cadu Martins, Diretor Nacional de Massificados da Amil, apresentou uma visão que vai além do debate abstrato sobre tecnologia: o que acontece, na prática, quando uma operadora de plano de saúde com 6,4 milhões de beneficiários decide colocar 20 colaboradores dedicados exclusivamente a inteligência artificial.
A Amil que Cadu representa hoje é diferente da Amil de dois anos atrás. Desde que foi adquirida por José Seripierr Júnior em fevereiro de 2024, a empresa inverteu uma trajetória de resultados negativos e fechou 2025 com lucro — apresentando o maior crescimento em vendas e adição de novos beneficiários do mercado. A receita, segundo Cadu, está numa combinação que parece simples mas é difícil de executar: tecnologia, relacionamento com o canal e uma filosofia clara sobre para quem o negócio precisa ser bom.
“O negócio tem que ser bom para todos. Não adianta só ser bom para uma perna. Tem que ser bom para a operadora, para o beneficiário e para o corretor. Sem esse tripé, a gente não vai a lugar nenhum.”
A IA como GPS: ela não dirige, ela apoia a decisão
Para explicar o papel da inteligência artificial no mercado de planos de saúde, Cadu usou uma analogia direta: a IA vai ter o mesmo impacto que o GPS teve na forma como as pessoas tomam decisões de trajeto. Ela não substitui o motorista. Ela apresenta o caminho mais eficiente — e cabe ao motorista decidir se segue ou não.
O mesmo vale para os médicos. A IA não diagnostica, não prescreve, não decide o tratamento. Ela organiza os dados disponíveis, apresenta padrões e apoia o profissional a fazer uma análise mais rápida e mais precisa. Um exemplo prático: quando o beneficiário acessa a telemedicina e aguarda o atendimento — mesmo que sejam apenas 30 segundos — ele já pode descrever seus sintomas. A IA processa essa informação e o médico chega à consulta mais preparado. Não é a máquina que atende. É o médico, melhor informado.
“A inteligência artificial vai ser como o GPS: vai ajudar as pessoas a tomarem decisões inteligentes e caminhos eficientes. Ela não vem substituir — vem complementar, vem nos ajudar a tomar decisões.”
Cadu também destacou uma aplicação que já está em operação na Amil: o uso de QR code com geolocalização para confirmar que o paciente está de fato na clínica no momento em que a autorização de procedimento é solicitada. Uma medida simples que muda completamente a eficiência do processo e reduz uma categoria inteira de fraude.
Dados são tudo — e quem protege os dados protege o negócio
Em resposta à pergunta sobre privacidade e proteção de dados na saúde suplementar, Cadu foi direto: o dado de saúde é o mais valioso que existe — e também o mais visado. Não é por acaso que hospitais e operadoras estão entre os alvos preferidos de ataques cibernéticos.
Para ele, a governança robusta e ética não é uma questão regulatória apenas. É uma questão de sobrevivência do negócio. Uma operadora que não protege os dados do beneficiário perde confiança, perde cliente e perde canal. E uma operadora que não usa bem os dados que tem perde eficiência — o que se traduz diretamente em reajustes mais altos para o beneficiário e margens menores para o corretor.
“Quanto mais fraude eu conseguir diminuir, melhor vai ser o resultado da carteira. Melhor o resultado, eu consigo trazer reajustes menores. Dados são poder — e a gente não pode brincar com isso.”
A lógica é circular e direta: melhor gestão de dados gera melhor detecção de fraude, que gera melhor resultado de carteira, que gera menor reajuste para o beneficiário, que gera maior satisfação e menor cancelamento — o que beneficia o corretor que administra aquela carteira. Todos ganham quando os dados são bem usados. Todos perdem quando não são.
A análise de contas que levava dias agora leva segundos
Um dos exemplos mais concretos apresentados por Cadu foi a análise de contas hospitalares. Quando um paciente recebe alta, o hospital emite uma conta com centenas — às vezes milhares — de itens. Hoje, um profissional humano precisa revisar cada linha. Com IA, esse processo se inverte: a máquina faz a análise inicial, identifica inconsistências e o profissional só precisa verificar o que foi sinalizado.
O ganho não é só de velocidade. É de precisão. A IA detecta cobranças duplicadas, itens não realizados e padrões de superfaturamento que um analista humano, sob pressão de volume, pode deixar passar. Para uma operadora do porte da Amil, o impacto financeiro dessa eficiência é direto — e se reflete, em cascata, nos reajustes que o beneficiário recebe e na rentabilidade da carteira que o corretor administra.
Cadu foi claro sobre o estágio atual: a Amil já tem vários processos internos utilizando IA, 20 colaboradores dedicados ao tema e uma ferramenta de vendas com IA em fase de lançamento. Mas o caminho que ainda resta é longo. “Não vamos separar um período antes da inteligência artificial e depois. Já estamos dentro dela”, afirmou.
O corretor no centro da estratégia
Ao longo de toda a sua apresentação, Cadu retornou com frequência a um ponto que, para ele, não é apenas estratégico — é estrutural: a proximidade com o canal corretor foi um dos pilares centrais da recuperação da Amil. Não foi só tecnologia. Foi tecnologia combinada com relacionamento.
Para o corretor, a mensagem foi direta: a IA que a Amil desenvolve tem impacto sobre o produto que o corretor vende. Menos fraude, melhor gestão, menor reajuste — isso tudo torna a carteira mais fácil de manter e o produto mais competitivo para oferecer. O corretor não precisa entender os algoritmos. Ele precisa entender o resultado.
“A gente tem certeza que tudo isso vai trazer resultado para vocês, corretores. Porque o negócio tem que ser bom para todos — e o corretor é parte fundamental desse tripé.”



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